Publicado por: Fabiano Medeiros | 30 setembro, 2009

Carta histórica de Bernardino Rodrigues Barcellos

A carta aqui transcrita data do período farroupilha (1835-1845) e está entre os documentos que constituem a Coleção Alfredo Varela, assim denominada por haver sido recolhida pelo compilador homônimo. São cartas endereçadas ao ilustre Domingos José de Almeida, um dos mentores da Revolução, por seu sogro, Bernardino Rodrigues Barcelos (meu pentavô pelo lado materno), e por seu cunhado, Joaquim Rodrigues Barcelos (meu tetravô).

Há também uma carta do filho de Joaquim, Dezembrino Rodrigues Barcelos (meu trisavô), endereçada a certo Luís.

Bernardino era pai de Joaquim, que era pai de Dezembrino. Dezembrino era pai de José Bernardino Barcellos (meu bisavô), pai de Isabel Escolástica Mello Barcellos (minha avó materna).

Essa correspondência e outros documentos do mesmo período, todos pertencentes à referida Coleção, acham-se preservados no quarto volume dos Anais, do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, publicado em 1980. São de Ilka Neves os úteis pormenores que julgamos importante incluir para maior elucidação do leitor:

Após a pacificação da Província, Domingos José de Almeida começou a reunir documentação visando escrever uma História da Revolução, o que não concretizou. Alfredo Varela preservou o material coletado enriquecendo-o com novas aquisições, e o governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 1936, adquiriu o acervo de fundamental importância para o estudo do decênio farroupilha.

Nos Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (1977-1986) foi publicada a documentação da denominada Coleção Alfredo Varela, com cerca de 13 mil documentos em sua maioria de procedência farroupilha.

Serve de respaldo histórico conhecer os critérios que nortearam a transcrição dos referidos documentos. O teor dos textos foi reproduzido na íntegra, havendo atualização ortográfica, incluindo-se topônimos e onomásticos, correção da pontuação se vital à clareza. O uso dos colchetes, com indicação de reto e verso, remete ao início de cada folha do documento. As palavras de leitura duvidosa se fazem acompanhar de ponto-de-interrogação.

A carta abaixo é a única de Bernardino Rodrigues Barcelos que consta dos Anais.

* * *

BARCELOS, Bernardino Rodrigues

CV — 2437

Meu querido Filho e Amigo do coração

Serra do Degredo, 6 de agosto de 1841.

Meu Compadre e Amigo a quem muito estimo.

Tenho à vista a sua última de 25 de junho p.p. a qual muito estimei pela certeza da sua boa saúde que lha desejo assaz continuada para amparo de sua ilustre família e tudo quanto lhe pertence.

Sim Sr., agora nada me priva senão a falta de saúde e ver a triste circunstância do resto de minha família miúda e sua comadre tão amofinada como a vejo, velha e magra, e eu vou conhecendo bem que o estar aqui tenho diminuído muitos anos de minha existência só em ver e lembrar-me o que fui em moço, e ao que era a minha casa e ao que está reduzida, isto é um grande sentimento e não posso distrair esta falta. Nunca eu viesse para semelhante chácara. Logo que eu saí das Pedras Altas devia ter-me encaminhado para Lionxe que lá teria algum gado para comer e vacas para o leite e mais sossego. Provera Deus que eu me apanhasse agora lá; pode ser que ainda vivesse mais tempo. Com que me há de pagar o Capitão João Batista Meireles os sete contos mil réis, fora os juros. Ainda não perdi as esperanças [1v.] de ainda ir para lá ao menos sua comadre e meninos a fim de os tirar desta grande miséria que vai piorando: aonde não trabalha o arado não adiantam nada as enxadas; todos os anos é preciso comprar milho e feijão, e sempre com faltas; gados tem-se comido aqui mais de 250 reses; é um lugar que sempre está a casa cheia de hóspedes, e todos vêm com fome, e porque são dos liberais devemos dar-lhes de comer, e quando não vão as vacas mancas e os bois que continuadamente estão faltando e mesmo os tourinhos pequenos; é muito triste lugar. Sim Sr., casou o Antônio; creio que já se terá arrependido, eu cem vezes lhe disse que não era tempo; depois casou a minha Francisca, também dizia ao Jeremias que só depois da guerra se faria, porém não foi possível. Sim Sr., sei que minha filha e netos se acham em Bagé, provera Deus que eu lá me apanhasse não saía para outro lugar. Afetuoso me recomendo muito saudoso e o mesmo sua comadre; o Juca e o Modesto cedo irão para Piratini para a escola; o Jeremias ainda não [2r.] veio da casa de seus pais. Como tem chovido muito, estão os arroios muito crescidos; a Chica já veio, do mano Inácio escreveu muito saudosa. Não esqueça muitas saudades à minha filha Bernardina e todos os netos e netas, e ela que haja esta por sua que agora não tenho tempo de lhe escrever pelo portador estar a sair. Deus N.S. os felicite a todos e guarde por muitos anos como lhes desejo a todos quantos lhes pertencem e que da minha boa vontade se sirva em tudo quanto for do seu agrado como quem é de V.M. seu pai muito venerador e criado

  1. Bernardino Rodrigues Barcelos

Estamos a 11 de agosto


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